Você já terminou de assistir a um vídeo pornográfico e ficou com a impressão de que sua vida sexual não é tão intensa, seu corpo não é tão atraente ou seu desempenho está longe daquele que acabou de assistir?
Essa comparação pode parecer injusta — e realmente é.
O que vemos nos vídeos pornográficos não é, necessariamente, uma representação espontânea do sexo. É uma produção audiovisual, com seleção de atores, preparação, direção, iluminação, enquadramentos e edição. Em outras palavras, existe uma encenação.
Corpos e desempenhos escolhidos a dedo
Os atores e atrizes que aparecem nesses vídeos são selecionados dentro de padrões estéticos específicos. Homens com pênis maiores, mulheres com seios volumosos, corpos definidos e características físicas que atendem às expectativas de determinado público.
As expressões faciais e as reações de prazer também fazem parte da atuação. Uma expressão intensa não significa, necessariamente, que aquela pessoa esteja sentindo exatamente o que demonstra diante da câmera.
A ereção masculina é outro exemplo. Para manter a performance durante as gravações, alguns atores utilizam medicamentos para facilitar ou prolongar a ereção. Um estudo publicado em 2018, com 62 homens que trabalhavam na indústria pornográfica, identificou que 73% relatavam utilizar algum recurso farmacológico ou mecânico para auxiliar a ereção. É importante lembrar que se trata de uma amostra específica, mas o dado ajuda a compreender as exigências dessa atividade profissional.
Além disso, uma cena que parece contínua pode ter sido gravada em diferentes momentos, com pausas, mudanças de posição e vários cortes. Portanto, a ereção que aparece durante os minutos de um vídeo não significa que o ator tenha permanecido com ela durante todo aquele período.
Quando a ficção vira referência para a vida real
O problema começa quando passamos a utilizar essas imagens como parâmetro para avaliar nossa própria sexualidade.
Podemos começar a acreditar que um pênis precisa ter determinado tamanho, que uma mulher deve apresentar determinadas características físicas ou que uma relação sexual precisa durar muito tempo, envolver posições específicas e terminar sempre com orgasmos intensos.
Também podemos imaginar que uma ereção deve ser permanente, que o desejo precisa aparecer imediatamente e que o prazer deve ser demonstrado de maneira intensa.
Mas o sexo real é muito diferente. Existem pausas, risadas, inseguranças, mudanças de ritmo, dificuldades de ereção, momentos de menor excitação e experiências que simplesmente não acontecem como planejamos.
Isso não significa que exista algo errado.
A pornografia pode influenciar nossas expectativas e a maneira como compreendemos o comportamento sexual, especialmente quando ocupa o lugar da educação sexual. Pesquisas também identificam associações entre a exposição frequente a esses conteúdos e uma percepção mais negativa da própria imagem corporal.
Isso não significa que toda pessoa que assiste a pornografia terá dificuldades sexuais. O contexto, a frequência de consumo, a idade de início e a maneira como cada indivíduo interpreta essas imagens fazem diferença.
Sexo não precisa parecer um filme
A pornografia pode ser uma forma de entretenimento, fantasia ou exploração da própria sexualidade. O problema não está necessariamente em assistir, mas em acreditar que aquilo representa uma regra a ser seguida.
Uma relação sexual satisfatória não precisa reproduzir cenas, corpos ou desempenhos vistos na tela. Não precisa ter duração determinada, posições obrigatórias ou expressões ensaiadas.
O prazer não é uma competição, e o sexo não precisa de uma direção de cena.
Talvez seja importante lembrar que estamos comparando nossa experiência mais íntima com uma produção feita para ser assistida.
E essas duas coisas não precisam ser iguais.