Existe uma expressão que usamos com tanta naturalidade que raramente paramos para pensar nela:
“Perder a virgindade.”
Mas perder o quê?
Quando perdemos alguma coisa, geralmente esperamos poder encontrá-la novamente. Perdemos uma chave, um documento, um objeto. Procuramos e, se tivermos sorte, recuperamos.
A virgindade, porém, parece funcionar de outra maneira.
Uma vez perdida, não pode ser encontrada novamente. E talvez seja justamente por isso que a expressão carrega tanto peso.
Uma coisa que só pode acontecer uma vez
Em nossa cultura, a primeira relação sexual costuma ser tratada como um momento especial. Para algumas pessoas, isso pode ser verdade. Uma primeira experiência pode ser importante, marcante e até transformar a maneira como alguém percebe a própria sexualidade. O problema começa quando transformamos essa possibilidade em uma obrigação.
A primeira vez precisa ser especial.
Precisa acontecer com a pessoa certa.
No momento certo.
Da maneira certa.
Agora vem a parte mais curiosa: pensem em como esse tema é tratado em homens e em mulheres? É igual? A mulher perde algo precioso que não pode ser recuperado. Enquanto os homens atravessam o portal da maturidade e se transformam em adultos prontos para desbravar as infinitas possibilidades da sexualidade.
E aqui fica a provocação: por que virgindade feminina é controlada dessa forma?
Mas o que conta como “perder a virgindade”?
Essa pergunta também revela outra dificuldade. Se virgindade é definida pela primeira relação sexual, precisamos perguntar:
O que exatamente conta como relação sexual?
Penetração vaginal?
Sexo oral?
Sexo anal?
Masturbação com outra pessoa?
E o que acontece com pessoas que têm experiências sexuais que não envolvem penetração?
A resposta varia.
E justamente por variar que percebemos que a virgindade não é apenas uma questão biológica. É uma construção que depende da maneira como cada sociedade define o que considera sexo.
Talvez não seja sobre perder nada
Isso não significa que a primeira experiência sexual não possa ser importante. Ela pode ser. Como muitas outras primeiras experiências na vida, pode deixar lembranças, expectativas, frustrações ou descobertas. Mas importância não é a mesma coisa que perda.
Talvez possamos deixar de pensar na primeira experiência sexual como algo que tira uma coisa de alguém. E começar a enxergá-la simplesmente como aquilo que ela é:
uma experiência que acontece pela primeira vez.
Não existe um objeto que desaparece. E não existe uma versão “menos pura” de alguém depois que ela acontece.
A sexualidade é um assunto complexo em que muitas coisas acontecem nas entrelinhas.