Boa sorte, Leo Grande

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O filme parece simples. Tudo se passa em um quarto de hotel, entre duas pessoas: Nancy Stokes, uma antiga professora de religião, e Leo Grande, um profissional do sexo, como ela prefere chamá-lo. Entretanto, são quase 100 minutos de um passeio por questões muito maiores: sexualidade, envelhecimento, corpo, desejo e, principalmente, prazer feminino.

O que leva uma mulher na pós-menopausa a procurar um profissional do sexo, dois anos depois da morte do marido?

A princípio, sua fantasia parece bastante objetiva: ter uma noite de sexo. Só isso.

Mas, para uma mulher que passou a vida fingindo orgasmos com o único homem com quem teve relações sexuais, logo percebemos que essa história guarda muito mais do que aparenta.

Nancy foi professora de religião. Durante anos, ensinou valores morais rígidos, acompanhados de uma boa dose de preconceito em relação à prostituição. Tinha o hábito de questionar anualmente seus alunos sobre a legalização ou não da prática. Era intransigente com o vestuário das alunas, tinha dificuldade em compreender que o estupro jamais é provocado pela roupa de uma mulher e usava o argumento da "proteção" para justificar suas críticas ao tamanho das saias.

De certa maneira, Nancy passou boa parte da vida ensinando aos outros como deveriam se comportar.

Mas aí voltamos ao tema principal do filme: por que um garoto de programa para uma noite de sexo?

E o sexo com o marido?

Sempre igual. Eles se deitavam. Ele subia sobre ela, fazia o que precisava fazer, ela fingia o orgasmo. Depois, ele vestia o pijama, virava-se para o outro lado e dormia.

E assim foi durante anos.

Nenhuma surpresa. Nenhuma descoberta. Nenhuma conversa. Tudo dentro de um roteiro previamente estabelecido.

Mas e o prazer?

E a intimidade com o próprio corpo?

E o desejo?

E o orgasmo genuíno?

E as fantasias que nunca foram ditas?

Onde tudo isso ficou?

Talvez uma das questões mais interessantes do filme seja justamente essa: quanto da nossa vida passamos desempenhando personagens que aprendemos a representar?

A professora correta. A esposa dedicada. A mulher comportada. A mulher que não deveria desejar demais. A mulher que deveria conhecer os limites do próprio corpo, mas não necessariamente explorá-los.

Quando deixamos esses personagens de lado e começamos, finalmente, a nos encontrar?

É a partir do contato com Leo — entre situações cômicas que tornam o filme leve e divertido — que Nancy começa, aos poucos, a se conhecer.

E talvez esse seja o grande mérito de Boa Sorte, Leo Grande: transformar uma história aparentemente simples em um convite para pensar sobre algo que muitas vezes deixamos de lado quando falamos de sexualidade — o direito ao prazer.

Prazer não como obrigação. Não como performance. Não como aquilo que precisamos oferecer ao outro.

Mas como uma experiência que também pode pertencer a nós.

O filme também nos lembra que o modo como vivemos nossa sexualidade não nasce pronto. Ele é construído por nossa educação, pelos valores que recebemos, pelas expectativas sociais e pelos papéis que aprendemos a desempenhar.

Por isso, a famosa frase de Simone de Beauvoir — "não se nasce mulher: torna-se mulher" — continua encontrando eco, mesmo em 2022.

Talvez porque, ainda hoje, muitas mulheres estejam descobrindo que tornar-se mulher também pode significar descobrir o que desejam, conhecer o próprio corpo e permitir-se sentir prazer sem culpa.

Elenco: Emma Thompson, Daryl McCormack, Isabella Laughland Direção: Sophie Hyde Roteiro: Katy Brand País de origem: Reino Unido Ano: 2022

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Dr. Giuliano Bongiovanni

Médico e terapeuta sexual. Escreve o Entrelinhas e atende em terapia sexual online.

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