Desejo espontâneo e desejo responsivo: precisamos estar com vontade antes de começar?

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Imagine a seguinte situação: você está em casa, tranquilo, fazendo alguma coisa qualquer, quando, de repente, sente vontade de fazer sexo. Talvez pense em alguém, lembre-se de uma experiência prazerosa ou simplesmente perceba que está com desejo.

Agora imagine outra situação.

Você chega ao final do dia, toma um banho, deita ao lado da parceria. Não estava pensando em sexo, não sentia particularmente vontade de transar. Mas vocês começam a trocar carinhos, a se beijar, a aproveitar aquele momento juntos. Aos poucos, algo muda. O contato é agradável, a excitação aparece e, junto com ela, surge a vontade de continuar.

Nos dois casos, o desejo apareceu. Mas será que ele surgiu da mesma maneira?

Nem sempre desejamos antes de começar. Às vezes, começamos a desejar depois.

Essa é uma das ideias mais interessantes apresentadas por Emily Nagoski em Come as You Are, ao abordar os conceitos de desejo espontâneo e desejo responsivo.

Quando a vontade aparece primeiro

Chamamos de desejo espontâneo aquela vontade de fazer sexo que aparece antes de qualquer estímulo sexual imediato.

É quando você está trabalhando, caminhando, tomando banho ou simplesmente vivendo o seu dia e, de repente, pensa em sexo. Talvez sinta vontade de procurar uma parceria, de beijar alguém ou de ter uma experiência sexual.

Nesse caso, o desejo parece surgir espontaneamente, sem que seja necessário começar uma interação sexual para que ele apareça.

É uma experiência bastante conhecida e, por isso, muitas vezes acabamos tomando esse tipo de desejo como referência para entender a sexualidade.

Afinal, se sinto vontade de fazer sexo, procuro alguém. Se não sinto, não procuro.

Mas será que essa é a única maneira de experimentar o desejo?

Quando o desejo responde ao prazer

Agora vamos voltar à segunda situação.

Você não estava pensando em sexo. Não havia uma vontade prévia, uma fantasia particularmente intensa ou aquela sensação de precisar procurar alguém.

Mas começa uma interação íntima. Um beijo, um abraço, uma troca de carícias. Talvez uma conversa agradável, a sensação de proximidade ou simplesmente um momento em que você consegue relaxar. A experiência é prazerosa. Você gosta do que está acontecendo. E, aos poucos, percebe que começa a sentir vontade de continuar.

Nesse caso, o desejo não foi necessariamente o ponto de partida. Ele apareceu em resposta à experiência.

É o que chamamos de desejo responsivo.

A ideia presente nos modelos contemporâneos da resposta sexual, ajuda a compreender que o desejo pode surgir ou aumentar a partir de estímulos e experiências agradáveis.

E aqui existe uma diferença importante: o prazer não precisa ser exclusivamente sexual desde o início. Pode começar com uma sensação de intimidade, um carinho, um beijo ou uma experiência que desperte interesse e bem-estar. A partir daí, a vontade de fazer sexo pode aparecer.

Em algumas situações, não é o desejo que nos leva ao prazer. É o prazer que desperta o desejo.

Mas precisamos estar com vontade antes de começar?

Essa é uma pergunta importante, especialmente porque muitas pessoas interpretam a ausência de desejo espontâneo como um sinal de que algo não está funcionando.

Imagine alguém que, ao longo de um relacionamento, percebe que já não sente aquela vontade repentina de fazer sexo com a mesma frequência de antes.Pode começar a pensar:

“Será que perdi o desejo?”

“Será que não sinto mais atração pelo meu parceiro?”

“Será que existe alguma coisa errada comigo?”

Essas dúvidas são compreensíveis. Afinal, aprendemos a associar desejo sexual àquela vontade que aparece espontaneamente. Mas a ausência de desejo espontâneo não significa, por si só, ausência de capacidade de desejar.

Algumas pessoas experimentam o desejo predominantemente de maneira espontânea. Outras percebem que ele costuma aparecer em resposta a estímulos e experiências prazerosas. E, para muitas, essas duas formas coexistem, variando conforme o momento da vida e o contexto.

O desejo responsivo não é uma obrigação

Aqui vale fazer uma pausa.

Falar sobre desejo responsivo não significa dizer que uma pessoa deve começar a fazer sexo mesmo quando não quer, esperando que a vontade apareça depois. Essa interpretação seria equivocada.

Existe uma diferença entre não sentir desejo espontâneo, mas estar aberto a uma experiência íntima, e não querer aquela experiência.

Uma pessoa pode não estar pensando em sexo, mas sentir curiosidade, disponibilidade ou vontade de se aproximar de alguém. Nesse contexto, pode descobrir que o desejo aparece durante a interação.

Por outro lado, se o contato provoca desconforto, rejeição, medo ou simplesmente não é desejado, não há obrigação de continuar.

Desejo responsivo não é fazer sexo sem vontade. É reconhecer que, em algumas circunstâncias, a vontade pode surgir durante uma experiência que já é desejada ou acolhida.

E essa diferença é fundamental.

O prazer como ponto de partida

Uma das contribuições mais interessantes dessa perspectiva é mudar a pergunta que fazemos sobre o desejo. Em vez de perguntar apenas “o que faz você sentir vontade de fazer sexo?”, podemos perguntar também:

“O que costuma despertar seu interesse?”

“Que tipo de experiência faz você se sentir disponível para a intimidade?”

“Quais situações favorecem o prazer?”

“Existe alguma coisa que dificulta que você aproveite esses momentos?”

Essas perguntas ajudam a perceber que o desejo não acontece isoladamente. Ele está relacionado ao corpo, às experiências, aos sentimentos e ao contexto. Às vezes, um beijo desperta o desejo. Em outras ocasiões, é uma conversa, uma fantasia, uma sensação de segurança ou a possibilidade de estar junto sem pressa.

Não existe uma fórmula universal.

O que desperta desejo em uma pessoa pode não ter o mesmo efeito em outra. E aquilo que funcionava em determinado momento da vida pode mudar com o tempo.

E se o desejo não aparecer?

Também é importante lembrar que uma experiência prazerosa não precisa necessariamente terminar em sexo.

Um carinho pode ser apenas um carinho. Um beijo pode ser apenas um beijo. Uma pessoa pode gostar de estar próxima de alguém sem desejar avançar para uma relação sexual.

O desejo responsivo descreve uma possibilidade, não uma promessa. Não significa que, se começarmos uma interação íntima, o desejo obrigatoriamente aparecerá. Tampouco significa que precisamos insistir até que isso aconteça.

O prazer pode existir sem excitação sexual. A intimidade pode existir sem sexo. E uma experiência pode ser satisfatória mesmo quando não evolui para aquilo que inicialmente imaginávamos.

O importante é que exista espaço para perceber o que estamos sentindo e respeitar os próprios limites e os da outra pessoa.

Afinal, existe um jeito certo de desejar?

Talvez essa seja a pergunta que atravessa todo o texto.

Existe uma tendência a imaginar que o desejo espontâneo é a forma mais genuína de desejar: aquela vontade que aparece sozinha, intensa, quase impossível de ignorar.

Mas o desejo responsivo nos convida a ampliar essa compreensão.

Nem sempre precisamos sentir vontade antes de começar a aproveitar um momento de intimidade. Às vezes, a vontade surge durante a experiência, em resposta ao prazer, à proximidade ou aos estímulos que fazem sentido para nós.

Isso não torna uma forma de desejo mais legítima do que a outra.

O desejo espontâneo e o responsivo são maneiras possíveis de compreender como a vontade sexual pode aparecer. E uma mesma pessoa pode experimentar ambos, em diferentes situações.

Talvez, então, a pergunta não seja apenas “por que não sinto desejo como antes?”.

Talvez também possamos perguntar: “como o desejo costuma aparecer para mim?”.

Porque compreender a própria sexualidade não significa tentar se encaixar em um modelo. Significa reconhecer a própria experiência, com suas particularidades, mudanças e possibilidades.

Sempre bom lembrar sexualidade é um assunto complexo, não existe uma resposta mágica, e muitas coisas acontecem só nas entrelinhas.

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Dr. Giuliano Bongiovanni

Médico e terapeuta sexual. Escreve o Entrelinhas e atende em terapia sexual online.

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