Talvez você já tenha imaginado alguma coisa durante o sexo que nunca faria na vida real.
Ou talvez tenha tido uma fantasia que preferiu guardar para você.
Uma situação diferente, uma pessoa inesperada, um lugar improvável, uma experiência que desperta curiosidade. Algumas fantasias podem parecer perfeitamente familiares. Outras podem nos surpreender — e até nos deixar um pouco desconfortáveis.
Mas existe uma pergunta que costuma aparecer quando falamos sobre isso:
Se eu fantasio com alguma coisa, significa que eu quero fazer aquilo?
Fantasia não é plano
A fantasia sexual faz parte da experiência sexual de muitas pessoas. Ela pode aparecer durante a masturbação, durante uma relação sexual ou simplesmente em pensamentos ao longo do dia.
E uma das coisas mais interessantes sobre ela é justamente sua liberdade.
Na fantasia, não precisamos obedecer às mesmas regras da realidade. Podemos imaginar situações que seriam impossíveis, improváveis ou que não teríamos nenhuma intenção de realizar.
É por isso que fantasiar não é o mesmo que desejar realizar.
Podemos imaginar algo sem querer que aconteça. Podemos sentir curiosidade sem ter intenção. E podemos até fantasiar com alguma coisa que, se acontecesse de verdade, talvez não nos proporcionasse prazer algum.
A fantasia existe em um território diferente da realidade.
Então por que fantasiamos?
Não existe uma única resposta.
As fantasias podem acompanhar a excitação sexual, aumentar a sensação de novidade, explorar curiosidades ou simplesmente fazer parte do imaginário erótico de uma pessoa.
Pesquisas sobre fantasias sexuais mostram que elas são bastante variadas e que algumas aparecem com frequência em diferentes grupos de pessoas. Fantasias envolvendo novidade, múltiplos parceiros, situações de poder ou submissão e diferentes formas de interação sexual, por exemplo, não são necessariamente indicativas de que alguém queira transformar essas situações em realidade.
O pesquisador canadense Christian Joyal e seus colaboradores encontraram justamente uma grande diversidade nas fantasias sexuais de adultos. O estudo também mostrou que algumas fantasias consideradas “incomuns” não eram necessariamente raras.
Isso é interessante porque ajuda a separar duas coisas que frequentemente confundimos:
“Eu consigo imaginar isso” não significa “eu preciso fazer isso”.
A fantasia também pode mudar
Assim como o desejo, a fantasia não precisa permanecer igual durante toda a vida.
Ela pode mudar conforme nossas experiências, relacionamentos, idade, contexto e aquilo que aprendemos sobre sexualidade.
Uma pessoa pode passar anos tendo determinada fantasia e nunca querer realizá-la. Outra pode descobrir, em algum momento, que gostaria de experimentar algo que antes existia apenas no imaginário. E existe ainda uma terceira possibilidade: a fantasia pode simplesmente desaparecer.
Nada disso significa necessariamente que exista algum problema. O imaginário sexual é dinâmico.
E quando a fantasia incomoda?
Aqui existe uma diferença importante.
Ter uma fantasia não significa que ela seja um problema.
O sofrimento pode surgir quando a pessoa passa a acreditar que não deveria pensar aquilo, sente culpa pelo conteúdo da fantasia ou interpreta o pensamento como uma revelação sobre quem ela é.
“Se pensei nisso, será que significa alguma coisa sobre mim?”
Às vezes, a fantasia incomoda mais pelo significado que atribuímos a ela do que pela fantasia em si. É importante lembrar que pensamentos e imagens mentais não são necessariamente intenções.
Ter uma fantasia sobre determinada situação não significa desejar que alguém seja prejudicado. Fantasiar com uma situação de poder não significa necessariamente querer reproduzi-la na vida real. E imaginar algo não transforma automaticamente esse algo em uma vontade.
Mas e se eu quiser realizar a fantasia?
Aí entramos em outro território.
Uma fantasia pode permanecer apenas no imaginário. Mas algumas pessoas escolhem transformar determinadas fantasias em experiências reais.
Isso pode fazer parte de uma vida sexual saudável, desde que exista consentimento, comunicação, respeito e segurança para todos os envolvidos.
E mesmo nesse caso, existe uma surpresa interessante: realizar uma fantasia não garante que ela será tão prazerosa quanto parecia na imaginação. Às vezes, a fantasia funciona melhor justamente porque permanece fantasia.
Talvez seja melhor não perguntar apenas “o que você fantasia?”
Quando falamos de sexualidade, talvez uma pergunta mais interessante seja:
“O que essa fantasia desperta em você?”
Pode ser curiosidade.
Excitação.
Sensação de liberdade.
Desejo de novidade.
Vontade de ser desejado.
Desejo de perder o controle — ou de finalmente tê-lo.
A fantasia pode falar menos sobre aquilo que queremos fazer e mais sobre aquilo que nos excita, nos provoca ou nos permite imaginar.
E talvez seja por isso que ela seja tão interessante. Porque, no imaginário sexual, nem tudo precisa ser realizado. Algumas coisas existem justamente para serem imaginadas.